quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

FIDH contabiliza 640 mortos na Líbia, dos quais 130 militares executados

Paris, 23 fev (EFE).- A Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) elevou nesta quarta-feira o número de mortos na Líbia para 640 pessoas, dos quais 130 são militares da região de Benghazi executados por seus oficiais por se negarem a disparar contra a população.
A presidente da FIDH, Souhayr Belhassen, garantiu em declarações à Agência Efe que o número que trabalha sua organização atende a um balanço de mortos "contados um a um" graças às informações repassadas por fontes médicas e militares no terreno.
Belhassen assinalou que 275 pessoas teriam morrido em Trípoli e outras 230 em Benghazi, das quais 130 seriam "militares executados por seus oficiais por se negarem a disparar contra a população" que protesta contra o regime de Muammar Kadafi.
A FIDH considera os assassinatos ocorrem de forma "sistemática e generalizada", acrescentou Belhassen, por isso que solicitam intervenção do Tribunal Penal Internacional (TPI) porque entendem que "há crime contra a humanidade".
Por sua vez, em declarações à rede de televisão "Al Arabiya", um membro líbio do Tribunal Penal Internacional (TPI) elevou a 10 mil as pessoas que morreram na Líbia desde o início dos protestos populares contra o regime de Muammar Kadafi.
Em declarações à rede a partir de Paris, o membro líbio, que não declarou se falava em nome do TPI, também assinalou que os feridos podem chegar a cerca de 50 mil.
Além disso, lembrou que "desde que Kadafi chegou ao poder assassinou a milhares de pessoas e também a milhares de presos nas mesmas prisões".
Por sua vez, o Governo líbio afirmou na terça-feira à noite que os mortos pelos distúrbios que atingem a Líbia nos últimos dias somam 300, dos quais 189 são civis e outros 111 membros das forças de segurança, militares ou policiais. EFE

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ali Aujali engrossa lista de diplomatas que desertaram o regime do coronel. Repressão aos protestos contra o governo deixa centenas de mortos.



Embaixador da Líbia nos EUA renuncia e pede a saída de Kadhafi



O embaixador da Líbia nos EUA, Ali Aujali, disse nesta terça-feira (22) que ele não representa mais o "regime ditatorial" de seu país e pediu que Muammar Kadhafi deixe o país.
"Eu renuncio a servir o atual regime ditatorial. Mas eu nunca renunciarei a servir nosso povo até que suas vozes cheguem ao mundo inteiro, até que seus objetivos sejam atingidos", disse ele em uma entrevista ao programa "Good Morning America", da rede ABC. "Peço a ele que saia e deixe nosso povo em paz."
Ele se junta a vários outros diplomatas líbios de alto escalão desertaram o regime de Muamar Kadhafi em protesto contra a morte de civis e o uso de força aérea contra os manifestantes na Líbia, cenário de uma revolta popular sem precedentes e que, segundo relato de organizações de direitos humanos e de testemunhas, já deixou centenas de mortos.

A missão diplomática líbia ns Nações Unidas anunciou a ruptura com o regime, explicou ao jornal The New York Times, mas sem confirmar a postura do embaixador Abdurrahman Shalgham, a quem não vê desde sexta-feira passada.O embaixador adjunto da Líbia na ONU, Ibrahim Dabbashi, exigiu a renúncia de Kadhafi, a quem acusou de "genocídio".
No domingo, o representante permanente da Líbia ante a Liga Árabe, Abdel Moneim al Honi, abandonou o posto para "unir-se à revolução" que tem lugar no país.
Altos dirigentes na Austrália, China, Índia e Malásia romperam relações com o líder líbio, afirmando que a matança foi longe demais e que, para o povo, Kadhafi perdeu qualquer legitimidade.


"Ontem começaram a utilizar aviões para bombardear civis que se manifestavam pacificamente. Isto é inaceitável", acrescentou.Minha renúncia se deve à violência em massa contra civis em meu país", declarou o embaixador líbio na Índia, Ali al Essawi, à AFP.
Al Essawi pediu à comunidade internacional e aos membros do Conselho de Segurança da ONU para que imponham uma zona de proibição de voos em seu país, similar à que foi instaurada em 1991 durante a era de Saddam Hussein no Iraque, depois da primeira Guerra do Golfo.
A embaixada da Líbia na Austrália rompeu suas relações com Trípoli, anunciou o conselheiros cultural da delegação, Omran Zwed, ao jornal The Australian.
Na Malásia, os funcionários da embaixada líbia condenou o "massacre" de manifestantes opostos ao governo, e retirou seu apoio a Kadhafi.
"Não somos leais a ele (Kadhafi), somos leais ao povo líbio", declarou o embaixador Bubaker al Mansori à AFP.
Na segunda-feira, um alto diplomata líbio destacado na China, Hussein Sadiq al-Musrati, renunciou a seu cargo durante uma entrevista ao vivo ao canal de televisão do Qatar Al-Jazeera, enquanto eram recebidas informações não confirmadas de que o embaixador líbio em Bangladesh também havia se demitido.
Apesar de uma breve aparição de 22 segundos na televisão na segunda-feira, o poder de Kadhafi se enfraquece. Vários pilotos de combate renunciaram, negando-se a bombardear os manifestantes.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Número não é definitivo e pode aumentar, afirma o premiê John Key. Terremoto de magnitude 6,3 atingiu Christchurch, ao sul do país

 Um terremoto de magnitude 6,3 matou pelo menos 65 pessoas nesta terça-feira (22)  em Christchurch, segunda maior cidade da Nova Zelândia, e muitas outras ainda estão soterradas sob escombros de edifícios.
Foi o segundo grande terremoto em cinco meses na cidade, que tem 400 mil habitantes, e foi também o mais letal desastre natural no país em 80 anos.
"Nós bem podemos estar testemunhando o dia mais sombrio da Nova Zelândia... Até o momento, o número de mortos está em 65 e pode subir", disse o primeiro-ministro neozelandês, John Key, à TV local. "É difícil descrever. O que era uma cidade vibrante algumas horas atrás agora está de joelhos", acrescentou Key, que viajou para Christchurch, sua cidade natal e onde tem parentes.
mapa terremoto nova zelândia (Foto: Arte/G1)Mapa localiza região do tremor (Foto: Arte/G1)
O prefeito da cidade, Bob Parker, comparou a situação da cidade a uma zona de guerra. Inicialmente ele disse que cerca de 200 pessoas podiam estar presas nos escombros, mas depois revisou o número para 100.
Uma mulher resgatada disse que passou seis horas esperando socorro. 'Achei que o melhor lugar era sob a mesa, mas o teto desabou por cima, não posso me mexer e estou aterrorizada', havia dito por celular a funcionária de escritório Anne Voss a uma TV local.
O tremor ocorreu na hora do almoço (fim da noite de segunda-feira no Brasil). Ruas e lojas estavam muito movimentadas, e os escritórios ainda estavam ocupados.
Pelo menos um corpo foi retirado de um edifício de escritórios de quatro andares da companhia Pyne Gould, situado em pleno centro da cidade, onde os bombeiros trabalham para resgatar cerca de 30 pessoas presas nos escombros, informou a rádio "Nova Zelândia".
Em algumas ruas de Chistchurch, cidade com população de 400 mil pessoas, o tremor gerou crateras de até um metro de profundidade. O prefeito confirmou que foi declarado estado de emergência na cidade e que a polícia e o Exército montaram um cordão de segurança ao redor da zona mais afetada.
O terremoto de magnitude 6,3 sacudiu a cidade de Christchurch às 12h51 da terça-feira (22) no horário local (20h51 desta segunda, 21, em Brasília), de acordo com o Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês), que monitora tremores pelo mundo.

O hospital local recebeu muitos pacientes com membros esmagados, cortes e dores no peito, e os casos mais sérios podem ser transferidos para outras cidades. Militares foram mobilizados para participar do resgate, segundo autoridades.Pelo menos 20 tremores secundários foram registrados.

O aeroporto da cidade foi fechado, e o centro foi esvaziado, de acordo com a polícia.
O epicentro do tremor foi localizado a 4 km de profunidade, a 5 km ao noroeste de Christchurch.
Um forte tremor de magnitude 7,2 havia atingido a mesma cidade em setembro de 2010, deixando 20 feridos e destruindo edifícios, o que fez o país decretar estado de emergência.
Christchurch é considerada um pedaço da Inglaterra no Hemisfério Sul. Tem uma famosa catedral, agora praticamente destruída, e um rio chamado Avon - como na Inglaterra. Tem muitos edifícios históricos, construídos em pedra, e também é freqüentada por estrangeiros que desejam aprender inglês e por turistas que a usam como trampolim para excursões pela Ilha Sul da Nova Zelândia.
Ajuda americana
Uma equipe de socorristas americanos viajou nesta terça para a Austrália para ajudar no resgate.

"Uma equipe americana de busca e socorro está viajando", anunciou o porta-voz do Departamento, Philip Crowley, no Twitter.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, transmitiu as condolências dos EUA durante uma conversa por telefone com o colega neozelandês, Murray McCully.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Grupo de 130 funcionários da Queiroz Galvão estão desde o dia 16 fechados em uma casa e um hotel da cidade aguardando possível retirada.



Um grupo de 130 brasileiros fechados desde a semana passada em uma casa e em um hotel da cidade de Benghazi já se prepara para uma alternativa para deixar o país caso não seja possível tomar um avião fretado preparado para retirá-los de lá.
A possibilidade em estudo é a saída por mar, pelo porto de Benghazi, em direção a Malta ou à Itália. Segundo informações ainda não confirmadas, a pista do aeroporto da cidade teria sido danificada durante os protestos, prejudicando a possibilidade de saída com avião.
A cidade de Benghazi, segunda maior do país, é o principal foco das manifestações contra o governo do coronel Muammar Khadafi, no poder no país há mais de quatro décadas.
Dezenas de pessoas teriam morrido em consequência da repressão aos protestos no fim de semana. Grupos opositores teriam tomado o poder na cidade.
Os brasileiros do grupo são funcionários da empresa Queiroz Galvão, que tem contrato para seis projetos de obras de infraestrutura na região de Benghazi.
A empresa mantém as famílias de brasileiros e também de empregados portugueses na casa do diretor da empresa para o Norte da África, Marcos Jordão. Há várias crianças no grupo. Os funcionários solteiros estão alojados em um hotel próximo.
'Estamos todos bem. Temos suprimentos para mais de cinco dias, mas esperamos uma definição para conseguirmos a retirada entre hoje e amanhã', afirmou Jordão em entrevista à BBC Brasil por telefone.
Segundo ele, os planos de retirada estão sendo coordenados entre a empresa e as Embaixadas do Brasil e de Portugal na Líbia.
'A ansiedade é grande, todo mundo aqui está com sua malinha pronta para ir embora', afirmou à BBC Brasil Roberto Roche Moreira, que está na casa de Jordão em Benghazi com a mulher e dois filhos.
Empenho
A filha mais velha de Moreira, Mariana, que vive no Rio de Janeiro, disse à BBC que espera do governo brasileiro um empenho maior na retirada dos brasileiros presos em Benghazi.
'O governo brasileiro precisa agir. Queria saber o que eles estão fazendo a respeito, mas tudo o que eu consegui ouvir nos contatos que fiz lá (no Itamaraty) foram respostas padrões. Eles só respondem que estão negociando, tudo muito vago', disse Mariana, de 27 anos.

'Em nenhum momento nos sentimos abandonados', disse. 'O problema maior é de logística, saber quem vai liberar nossa saída', afirmou, observando que o salvo-conduto para a movimentação do grupo pode ter que ser negociado com os grupos de oposição que teriam tomado conta da cidade.Roberto Moreira, porém, diz que todos na casa estão 'bens e tranquilos' e diz que tanto a Queiroz Galvão quanto as embaixadas do Brasil e de Portugal estão empenhadas em conseguir a retirada dos funcionários da empresa.
'Queremos sair o mais rápido possível, mas temos que sair com segurança, com a certeza de que não vamos enfrentar nenhum perigo pelo caminho. Aqui está todo mundo bem, todo mundo tranquilo, mas não vamos nos arriscar', afirmou.
Tiros
Segundo Marcos Jordão, o grupo de cerca de 50 pessoas que está fechado em sua casa desde a quarta-feira não chegou a observar a violência decorrente da repressão aos protestos populares.
'Nos primeiros dias, ouvíamos de longe sons de tiros, mas desde sábado à noite não temos ouvido mais nada. A cidade parece estar tranquila agora', diz.
Segundo ele, as informações que o grupo recebe são escassas, por conta do bloqueio à internet e a censura na imprensa local. A única fonte de informação são os canais internacionais da TV por satélite, que não tem sido bloqueada.
Os serviços telefônicos também estão prejudicados. Os brasileiros contam que conseguem receber ligações, mas não conseguem ligar para fora.
Jordão foi o único do grupo a deixar a casa, para visitar os demais funcionários alojados pela empresa em um hotel próximo. Ele contou ter visto sinais das manifestações nas ruas, como pilhas de lixo e pneus queimados e materiais militares abandonados, mas afirmou não ter visto pessoas protestando nem episódios de violência.
Segundo ele, o comércio para suprimentos, como supermercados, permanecia aberto na cidade.
'As informações que temos ainda são desencontradas. Sabemos que houve algo pesado, pela quantidade de tiros que ouvimos, mas cada um diz uma coisa e todos tendem a aumentar um pouco', diz.
'Temos procurado ficar distantes desses eventos, sem nos envolver', afirma.
A Queiroz Galvão é a única empresa brasileira instalada na região de Benghazi. Outras três companhias do país - Petrobras, Odebrecht e Andrade Gutierrez - mantêm escritórios e funcionários na capital do país, Trípoli.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Egito pós-Mubarak abre Canal de Suez para navios de guerra do Irã

Canal de Suez
Passagem de embarcações iranianas não ocorria há 30 anos
O governo israelense criticou a passagem, permitida pelas novas autoridades egípcias, de dois navios de guerra iranianos pelo Canal de Suez.
É a primeira vez desde a Revolução Islâmica no Irã, em 1979, que navios de guerra iranianos atravessam o canal de Suez, que liga o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo e é controlado pelo Egito.
As autoridades militares que governam o Egito desde a queda do presidente Hosni Mubarak afirmaram que não têm objeção à travessia dos navios iranianos, sob o argumento de que o país não tem conflitos com o Irã.
Segundo o governo iraniano, a fragata Alvand e o navio de suprimentos Kharq estão a caminho do Mediterrâneo para participar de uma missão de treinamento em conjunto com a Marinha síria.
A bordo do Kharq há helicópteros e 250 tripulantes. O Alvand está armado com torpedos e mísseis.
Os navios entraram no canal de Suez às 5h45 do horário local e deverão concluir a travessia no final da tarde desta terça-feira.
Influência iraniana
O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou neste domingo que considera "grave" o envio dos navios iranianos para o canal de Suez.
Segundo o premiê, a medida demonstra que o Irã está "se aproveitando da instabilidade atual no Egito para ampliar sua influencia na região".
Fontes militares disseram à imprensa israelense que a Marinha de Israel "observará os navios iranianos à distância e não entrará em contato com eles".
A passagem dos navios iranianos pelo Canal de Suez foi adiada algumas vezes e em princípio havia sido desmentida pelas autoridades militares do Egito.
No entanto, no final da semana, as autoridades egípcias anunciaram que "Cairo decidiu permitir" a passagem dos dois navios.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, afirmou que a comunidade internacional deve entender que "Israel não poderá ignorar eternamente essas provocações (do Irã)".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Código de Defesa do Consumidor e os criminosos trotes



É sempre a mesma coisa: com o início das aulas nas Faculdades, os veteranos trogloditas dão início a mais uma demonstração de selvageria na recepção aos calouros. As autoridades policiais são omissas nessa questão, pois como anoto abaixo alguns crimes são praticados para qualquer pessoa ver. Além disso, não se pode esquecer a responsabilidade das instituições de ensino. Neste ponto, abordarei o tema com base nas garantias de proteção à saúde e segurança dos estudantes (consumidores) previstas no Código de Defesa do Consumidor.
Conforme já tive oportunidade de relatar em outras ocasiões, consta que o trote estudantil nasceu nas Universidades europeias na Idade Média. Tendo em vista o terrível baixo nível de higiene da época, por razões profiláticas, isto é, para evitar doenças e sua proliferação, raspava-se a cabeça dos alunos ingressantes (os calouros) e muitas vezes queimavam-se suas roupas. Essas questões, inicialmente higiênicas, muito provavelmente influenciadas pelo grau de brutalidade reinante, já no século XIV, nas Universidades de Bolonha, Paris e Heidelberg, haviam se transformado em rituais bárbaros claramente sadomasoquistas: Os veteranos arrancavam pelos e cabelos dos calouros, que muitas vezes eram obrigados a ingerir urina e comer excrementos. (Fatos observados em Faculdades no Brasil dos Séculos XX e XXI!).
Em Portugal, há relatos de trotes violentos no Século XVIII na Universidade de Coimbra. Tudo indica que os estudantes da elite brasileira que lá estudaram tenham importado a prática para o território nacional. A ignorância e a bestialidade do ritual fez sua primeira vítima fatal no ano de 1831, com a morte de um estudante da Faculdade de Direito de Olinda. Os trotes, assim como os crimes e as mortes continuaram por todo o século XX: em 1980 um calouro de um curso de jornalismo foi morto por traumatismo cranioencefálico em Mogi das Cruzes; em 1990 morreu de parada cardíaca um calouro do curso de direito em Goiás; em 1999, um calouro de medicina da USP morreu afogado em uma piscina etc (um longo e tenebroso etc).
O trote estudantil, humilhante e selvagem, ao invés de integrar o aluno recém-aprovado sempre foi um modo fascista de receber aqueles que ingressavam nas faculdades. Lembro que quando ingressei na Faculdade nos idos de 1976, nós estudantes já pensávamos que aquilo era um jeito muito estranho de dar boas vindas. Não só eu, mas muitos de nós, achávamos uma contradição os jovens ingressarem na faculdade -- um restrito setor da elite brasileira - e se mostrarem tão mal educados: ao invés de agradecer ao privilégio e dar as boas vindas aos ingressantes, agiam como bárbaros, arrogantes e sádicos. Os trotes eram generalizados, sendo praticados em quase todas as escolas.
Felizmente, isso mudou em parte: são muitas as escolas que não só proíbem os trotes violentos, como vários Centros Acadêmicos (CAs), cônscios de suas responsabilidades como guardiões dos direitos e das liberdades também os combatem. Muitas escolas e CAs, por exemplo, substituíram esse tipo de delito pelos chamados "trotes solidários": organizam festas de recepção, shows, teatros nos quais os calouros não só participam como distribuem produtos alimentícios, medicamentos e roupas para serem doados à Instituições de Caridade. Conheço escolas em que os veteranos montam grupos de recepção para integrar os calouros na vida universitária, mostrando o funcionamento efetivo do campus, o método de ensino, as condições reais de estudo, explicando as regras vigentes etc. Isso é mesmo muito bom.
Todavia, nem bem o ano letivo começou e a violência retornou. Se eu dissesse a você, leitor, que jovens foram amarradas e sobre elas foram jogadas mistura de sangue, fezes de animal, urina e ovos, se eu dissesse que isso foi feito, você pensaria que se trata de agrado de boas vindas? Ou, na verdade, parece mais um grupo de bandidos em explícita prática de tortura? A resposta, evidentemente, aponta para uma quadrilha covarde e violenta.
Pois, foi o que aconteceu com os calouros dos cursos de Zootecnia e Medicina da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). (Fotos foram tiradas e podem ser vistas no seguinte endereço: www.blogdafolha.com.br. Basta acessar e colocar "trote" na busca). Pergunto: Até quando as autoridades policiais permitirão esse e outros tipos de trote violento? No caso da Univasf as fotos permitem identificar os veteranos criminosos. Na cidade de São Paulo, por exemplo, ainda se pratica o trote nas ruas para quem quiser ver. Lembro que o trote violento - física, moral e psicologicamente - caracteriza prática criminosa prevista em nossa legislação penal. É possível também ao calouro-vítima buscar ressarcimento na esfera civil. Vejamos.
Não preciso, naturalmente, referir os casos-limite que ocasionaram mortes, como os que acima apontei, crimes graves e que efetivamente restaram investigados. Citarei os demais casos que também são tipificados como crimes.
Cortar o cabelo total ou parcialmente do calouro ou da caloura contra sua vontade caracteriza crime de lesão corporal (art. 129 do Código Penal-CP). O mesmo ocorre cortando-se a barba total ou parcialmente do calouro.
Humilhar o calouro ridicularizando-o publicamente, pintando seu corpo, fazendo "cavalgada" (modo esdrúxulo do veterano sentar sobre o calouro de quatro ao solo fingindo ser um cavalo, um jumento ou um burro), amarrá-lo, fazê-lo gatinhar pelas ruas, faze-los andar um colado no outro como uma centopéia, e todos os outros métodos sádicos e degradantes semelhantes são caracterizados como crime de injúria (Artigo 140 do CP).
Obrigar o calouro a ingerir bebida alcoólica contra sua vontade é crime de constrangimento ilegal (art. 146 do CP) e se esse tipo de ação é praticada por mais de três pessoas (como normalmente ocorre) o crime passa a ser qualificado e sua pena aumentada. Se, por acaso, o calouro resiste e não bebe, ainda assim está caracterizado o crime como tentativa (art. 14, II do CP).
Haverá outros crimes que possam ser praticados, além daqueles em que são cometidos assassinatos. E, anoto, também, que os delitos podem ser considerados em concurso, isto é, o veterano pode ser condenado como incurso em mais de um crime simultaneamente.
Um ponto merece destaque: o da participação das escolas. É incrível, mas algumas instituições de ensino simplesmente não tratam dessa questão. Agem como se não fossem problemas delas, com a alegação de que o que ocorre fora do campus não é de seu interesse e responsabilidade. Mas, não é bem assim.
Primeiramente, anote-se que a obrigação moral é evidente. O trote só ocorre porque existe a escola, os calouros e os veteranos. Depois, é possível sim buscar responsabilizar a escola civilmente por faltar com seu dever de vigilância. A responsabilidade é clara quando os trotes ocorrem nas dependências e arredores das escolas (locais de entrada e saída, que devem ser controlados e vigiados pelas instituições de ensino). É verdade que quando o evento ocorre fora do campus, é mais difícil responsabilizar a escola, mas não se deve esquecer que, provavelmente os calouros foram apanhados na porta ou dentro de seus muros.
O CDC, como adiantei, garante que os serviços colocados no mercado de consumo (dentre os quais estão os educacionais em todos os níveis) não podem acarretar riscos à saúde e segurança dos consumidores (art. 8º, "caput"). Esses riscos podem estar relacionados à prestação direta do serviço ou à sua omissão. Calouros sendo submetidos a atos vexatórios ou violentos contra sua incolumidade física e/ou psíquica dentro das dependências da escola implica clara responsabilidade por omissão. Do mesmo modo, há omissão quando é permitido que os calouros sejam levados (sequestrados) de dentro da escola, das portas ou imediações para que sejam submetidos aos atos degradantes em outro lugar. Consigno também que os danos físicos e/ou psicológicos sofridos pelos estudantes são indenizáveis, respondendo a escola pelo defeito de sua prestação de serviços de forma objetiva, com base no art. 14 do CDC.
Ademais, é de se colocar que o mínimo que a instituição de ensino pode fazer é proibir o trote e nos primeiros dias de aula distribuir avisos para os calouros, dizendo como eles devem agir para se proteger dos atos violentos praticados pelos veteranos. E a denúncia feita pelos calouros gerando punição administrativa dos veteranos com suspensões e até expulsões certamente terá eficácia duradoura. A punição exemplar pode refrear os ânimos animalescos dos veteranos no futuro.
Não se deve esquecer que nem sempre os calouros querem participar desse tipo de masoquismo explícito. É preciso oferecer a eles um meio de se protegerem, assim como de falarem e serem ouvidos. Claro que, nesse ponto, também, as autoridades policiais têm se omitido, uma vez que, como disse, muitos trotes são feitos a céu aberto, em praça pública (literalmente), ruas e avenidas.
Realmente, assistindo às cenas, fica difícil acreditar que aqueles veteranos que estudam em conhecidas escolas de direito, medicina, sociologia, engenharia etc possam um dia exercer tais profissões com dignidade. Começam muito mal sua vida acadêmica e social. São antes selvagens que modernos estudantes universitários. É verdade que se trata de uma minoria, aliás, talvez a mesma minoria que anos depois, no período da formatura, faz os "botaforas" violentos.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

60% dos italianos querem a queda imediata de Berlusconi e a volta do decoro e da ética



1. Na madrugada de hoje, o respeitado jornalista Giovanni Floris, condutor do programa televisivo de debates políticos Ballarò (RAI-3), leu, para delírio do auditório lotado, o resultado de uma pesquisa feita por amostragem.
Por ela, 60% dos eleitores residentes na Itália querem a imediata renúncia do primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
2. A maioria dos italianos clama por decoro no exercício do cargo de premiê. Também por ética pública na condução do governo e pelo fim da “meritocracia” instituída do Berlusconi.
Na meritocracia berlusconiana só são abertas oportunidades às detentoras de corpos sexualmente esculturais e desfrutáveis.
Não precisa ser italiano para perceber que a boa imagem internacional da Itália só será recuperada com a substituição do atual chefe de governo.
3. Não só as orgias do premiê incomodam e envergonham a Itália.
Berlusconi confunde o público com o privado e, permanentemente, finge não perceber o conflito de interesse entre seus negócios empresariais e os das estatais italianas.
O premiê se coloca como vítima de uma Magistratura voltada, segundo afirma, a cassar a vontade popular expressa por votos e derrubá-lo por sentenças.
O certo é que Berlusconi — que só fala em vontade da maioria e preservação do sistema democrático — quer usar isso como escudo de impunidade. A experiência brasileira mostra que o então presidente Fernando Collor de Mello, eleito com grande votação, acabou cassado por fato ocorrido quando no exercício do cargo de presidente da República.
No momento, Berlusconi estuda numa manifestação de praça.
Por evidente, ele tentará se contrapor à manifestação de domingo passado quando mulheres, espontaneamente, sem bandeiras de partidos políticos, sem líderes, pediram respeito, dignidade, liberdade e a renúncia de Berlusconi.
As manifestações ocorreram em 230 cidades italianas e, só em Roma, 1 milhão de mulheres estiveram na Praça do Povo em protesto.
Os dois advogados do premiê — deputados colocados na lista de candidatos por determinação de Berlusconi, pois na Itália se elege por lista do partido — falam em incompetência funcional e territorial da juíza que recebeu as acusações e determinou um rito processual mais rápido do que o ordinário. Pela decisão da juíza de instrução preliminar (gip), o processo tramitará num Colégio julgador, composto por três magistradas.
4. Berlusconi é réu (imputado) desde ontem.
Antes era investigado pela Magistratura do Ministério Público de Milão por “concussão” (grosso modo, abuso de função com exigência) e desfrutamento de “prostituição infantil”, no caso da marroquina apelidada de Ruby Rubacuore (Ruby-Rouba Coração).
Os advogados, sem corar, sustentam que Berlusconi agiu como primeiro-ministro quando interferiu na soltura da menor Ruby (estava presa por furto no departamento de polícia).
Só para lembrar, Berlusconi, com o celular do seu agente de segurança, telefonou para o departamento de polícia de Milão (Questura). Então, falou que Ruby era sobrinha do presidente Mubarak e isso poderia gerar um rompimento diplomático prejudicial à Itália, caso a menor não fosse colocada em liberdade.
A mentira era tamanha que Berlusconi achou que a marroquina Ruby fosse egípcia. O então presidente Mubarak enviou nota diplomática de protesto. Negou parentesco e reprovou as declarações de Berlusconi de que, certa vez, ele havia lhe pedido para que tomasse conta da sobrinha.
Parêntese. Ruby era prostituta, comparecia, apesar de menor idade, às orgias (bunga-bunga) nas residências do premiê. Ruby tinha o número do celular de Berlusconi e trocava com ele, antes da prisão, mensagens (mais de 200 estão comprovadas).
Depois do telefonema ao departamento de polícia, Berlusconi enviou para lá a sua antiga higienista bucal Nicole Minetti: por determinação de Berlusconi ao partido, Minetti foi colocada na lista de candidados à vereança e se elegeu pela votação obtida pela coligação partidária.
A menor Ruby foi liberada sob custódia a Minetti. Berlusconi foi participado da soltura de Ruby. No primeiro quarteirão depois do departamento de polícia (Questura), Minetti se despediu de Ruby e esta seguiu na companhia da prostituta com quem morava. Foi essa prostituta quem avisou Berlusconi da prisão de Ruby e dos riscos de vazarem ligações do premiê com uma menor. Como se nota, Berlusconi velava “pela sobrinha de Mubarak”, como disse ter prometido a ele.
5. Para a juíza de instrução preliminar Cristina Censo — que recebeu a acusação para colocar Berlusconi como réu por crimes de desfrutamento de prostituição infantil e concussão — no episódio Ruby não houve, pela prova revelada no curso das investigações, atuação de Berlusconi como premiê, mas no interesse privado.
Assim sendo, concluiu pela competência do Colégio Judiciário da quarta seção do Tribunal de Milão, composto pelas juízas Carmen D’Elia, Orsolina De Cristofaro e Giulia Turri. Afastou, como decorrência, a competência do Tribunal de Ministros (outro órgão judiciário).
Berlusconi e seus advogados-deputados sustentam que, por ter Berlusconi atuado como premiê, a competência para apreciar o caso é do Tribunal de Ministros (órgão judiciário com juízes sorteados).
É a tese que interessa a Berlusconi. Isto porque o Tribunal de Ministro, para processar e julgar Berlusconi, precisa de autorização do Parlamento. Nele, o premiê Berlusconi tem maioria, e a autorização não seria dada.
PANO RÁPIDO. Berlusconi não vai comparecer ao Colégio Judiciário. Quer enviar o caso para o Tribunal de Ministros que, para processá-lo, precisa de autorização do Parlamento, de maioria berlusconiana. Em síntese, ele não quer ser processado. Até porque não abrirá mão da autorização do Parlamento, no caso de ser reconhecida, pela Corte Constitucional (será acionada), a competência do Tribunal de Ministros.
Fonte: terra.com.br